Autoral

Expediente

Autoral

Expediente
17h30 – 20h / 2017 – 2025
O projeto Expediente, de André Sanches, reúne fotografias realizadas na região central de Curitiba entre o fim da tarde e o início da noite, no período de 2017 a 2025.

O trabalho observa a cidade a partir de seus fluxos coletivos: gestos, deslocamentos, encontros e esperas que se repetem diariamente e revelam camadas do cotidiano urbano. As imagens registram como luz, movimento e arquitetura se transformam nesse intervalo entre dia e noite.

O projeto foi exposto no Memorial de Curitiba, no Salão Paraná, e deu origem ao livro Expediente, publicado pela Editora Voar.

Finalista do Hasselblad Masters 2026 — categoria Street.

Curadoria: Guilherme Zawa
Coordenação: Lucas Pontes
EXPEDIENTE, de André Sanches.

O que resta de nós quando a utilidade termina e se esconde por trás dos gestos burocráticos do cotidiano, da espera na fila no ponto de ônibus no final do dia útil, da noite que enseja o final do expediente e a promessa de mais no dia seguinte?

As fotografias de André Sanches não tratam do que foi concluído, mas do que está suspenso pelo funcionamento do mundo, revelando o íntimo em momentos hesitantes, iminentes nas camadas da imagem, na textura do tempo, no eco das ações repetidas.

Sanches opera como investigador de gestos abdicados, preteridos, e observa o que o momento não demonstra. As portas fechando e a luz elétrica que irradia no lusco-fusco são o punctum. Nos termos de Roland Barthes, esse acidente que fura a superfície da imagem e nos atinge, não no intelecto, mas no corpo, feridas poéticas que rompem o studium da cidade. Difere do documento e nos convida a não ler o conteúdo, mas a decifrar a alma material desses momentos, sua frieza, seu desgaste, sua melancólica presença.

Sanches observa o momento do inacabado, do provisório, do analógico, do áspero, cheio de falhas e marcas; o expediente é viral, não virtual. É a força do negativo, do conflituoso de todo dia, o fim da positividade lisa e falsificada. É a pressa, a chuva, o acidente, o paradoxo, o tabu. A bolha furada do espírito da época.

EXPEDIENTE é, portanto, um anti-expediente. Sanches flana para não catalogar ou compreender, mas segue as pistas de fantasmas contidos em estruturas contenedoras. O ato fotográfico aqui é um lento ritual de desaceleração, um convite a tocar o tempo, a perder-se nos corredores de uma memória que será nossa, apesar de nossa distração, mas que, quem sabe, um dia, nos reconhecerá. Sanches nos entrega o estado de poesia severa e comovente de tudo aquilo que o mundo pragmático decidiu que já não servia para nada e o que se esconde na espera solitária do transeunte que atravessa a rua em direção ao futuro.

Guilherme Zawa, Curador.